Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Era raro enganar-se naquelas coisas. Cheirava à distância as falhas de carácter que considerava graves e inultrapassáveis e afastava-se desses antes que pudessem ter qualquer espécie de papel na sua vida. Mas, um dia, enganou-se. Conheceu uma pessoa cheia de fragilidades e inseguranças que disfarçava a ineptidão com uma generosidade sabuja.

Todos lhe diziam que era um verme, um homem sem princípios, de pequenos gestos e grandes trapaças. Ela ignorou os inúmeros avisos de conhecidos comuns e irresponsavelmente deu à criatura o acesso ao seu círculo e uma perigosa proximidade dos seus. Ele começou por fingir que os admirava também, cobrindo-os de bajulações reles. Ela defendeu-o sempre, até à última e irrefutável prova do seu engano e imperdoável ingenuidade. Influenciou aqueles que, mais tarde, iriam sofrer mais directamente nas mãos dele para que o defendessem também. E assim o fizeram. Sempre.

Até que chegou aquele dia, — um dos piores da sua vida — e ali estava, à sua frente, a materialização da traição, o comportamento torpe, covarde e infame.

Nunca percebeu se ele o fez por dinheiro ou pura inveja, mas o móbil era irrelevante. Um homem não faz aquilo. Ele acha que traiu um dos dela, mas o Direito tem um instituto chamado culpa in eligendo, (a responsabilidade pela escolha do terceiro que pratica o acto ilícito).

A culpa, agora, era só dela. Tal como seria o acerto das contas.

publicado por Laura Abreu Cravo | partilhar
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